artigo da semana

-COMUNICAÇÃO ENTRE O MUNDO ESPIRITUAL E O DOS ENCARNADOS-

Por José Amigó e Pellícer

Uma colaboração de Estênio Negreiros (estenio.gomesnegreiros57@gmail.com)

 

 

Capítulo XX

 

Primeira parte

 

A muitas pessoas, mais ou menos conhecedoras da Doutrina Espírita, temos ouvido dizer e repetir:

 

"É pena que o Espiritismo aceite a comunicação do mundo dos Espíritos com o dos encarnados! Sim, este lado ridículo e fantástico seria mais cabível nas teorias religiosas, porque é a mais racional, a mais consoladora e a que melhor explica as relações do visível e corporal com o invisível e espiritual".

 

Esses tais pertencem ao número dos que se blasonam de despreocupados — e temem a classificação de crédulos ou supersticiosos, se transigirem com a idéia da comunicação dos Espíritos.

 

Outros — e estes são a generalidade dos católicos — admitem o fato da comunicação; porém, em vez de considerá-la ensino proveitoso, permitido por Deus, e dado por Espíritos de todas as categorias na escala do progresso, atribuem-na à intervenção maléfica do Espírito das trevas, partindo do suposto que, nem os bemaventurados do céu, nem as almas dos que temporariamente sofrem no purgatório, nem os condenados à dor sem termo, podem comunicar-se com os mortais. Dessa liberdade, dizem, somente gozam os demônios, para fazerem aos homens suas tentações e arrastá-los às fogueiras inferiores, isto é, à inquisição eterna.

 

Outros, finalmente, os materialistas, negam redondamente a comunicação espírita, como tudo o que aparece com caráter extranatural e fora do alcance dos sentidos e atribuem-na a causas puramente mecânicas, conquanto desconhecidas: à alucinação ou à feitiçaria.

 

A comunicação espiritual, sanção dos princípios que constituem o credo do Espiritismo, pois que, faltando ela, careceriam de autoridade e não se elevariam da esfera das hipóteses humanas aqueles princípios, é a continuação da revelação divina, sem cujo auxílio jamais teria a Humanidade alcançado a ideia de Deus e o conhecimento de seus deveres morais e do seu futuro destino.

 

Sendo necessária a revelação para o progresso das sociedades, ela devia vir, e tem vindo, do Alto, em todos os tempos, na medida das necessidades humanas e do cultivo e aperfeiçoamento das almas.

 

A Ciência e a lei moral vêm de Deus; e, portanto, a Humanidade, sem a revelação, não teria dado um passo nas vias da Ciência, nem produziria um código moral que merecesse dos homens um mediano respeito.

 

Ou é preciso ir com os materialistas à negação de Deus e da sobrevivência individual do Espírito, ou é preciso aceitar a possibilidade e a realidade da comunicação espiritual.

 

O mais lógico é aceitar a possibilidade, porque, se os Espíritos presos no grosseiro cárcere do corpo comunicam, apesar disso, seus pensamentos, com quanta maior facilidade poderão comunicá-los, rotos os laços que os prendiam e tolhiam?

 

Aceitemos a realidade; porque, além de vir à comunicação com o testemunho dos homens, é, como o temos demonstrado, um fato necessário — e o que é necessário, infalivelmente sucede.

 

Não merece a honra de uma refutação à ideia de atribuir ao diabo, exclusivamente ao diabo, as comunicações espirituais. Dando de barato que o diabo fosse uma entidade real, uma personalidade e não um mito alegórico, seria blasfêmia supor que Deus consentisse numa influência maléfica sobre as criaturas e lhes recusasse a influência benéfica dos Espíritos de luz.

 

Não existindo entre o homem e os Espíritos outra comunicação que não seja a diabólica, de que servem as orações aos santos, tão recomendadas pela igreja?

 

Era o diabo o Espírito que inspirava os profetas, que punha em movimento a pena de Isaías (28), que enviou João a batizar em água (29), dizendo-lhe como reconheceria a Jesus?

 

É o Espírito maligno que Jesus promete (30) aos que em espírito pedirem ao Pai?

 

Foi demônio o Espírito que saudou a Maria, e o que falou pela boca de Estevão (31), e o que conversou com Pedro e com o centurião Cornélio (32), e o inspirou a Agabo? (33) Referindo-se Paulo, o Apóstolo dos gentios, às comunicações do Espírito (34), em sua carta aos filipenses, aludiu porventura a comunicações infernais?

 

"Caríssimos — disse S. João, em sua primeira carta (35) —, não acrediteis em todo Espírito, mas verificai se são de Deus"; formal confirmação da possibilidade e  realidade da comunicação recíproca dos Espíritos, em seus diversos graus, como os homens.

 

A comunicação espírita foi e continua a ser uns fatos constantes, atestados pelas Escrituras e por milhares de homens de todos os tempos e de todos os países. Como se verifica esta comunicação? Ignoramo-lo; esta ignorância, porém, não destrói o fato. E ignoramo-lo, porque desconhecemos a natureza do corpo espiritual de que fala S. Paulo em sua primeira carta aos coríntios. (36)

 

Se a comunicação espírita fosse, como creem os materialistas, resultado de uma alucinação, que não se explica sendo tão geral, ainda assim veríamos nela a ação providencial da Divindade; pois que só pode ser de origem divina uma alucinação que eleva as almas pelo cumprimento do dever.

 

(28) Isaías, 8: 1. (29) João, 1: 33. (30) Lucas, 11: 13. (31) Atos dos Apóstolos, 6: 9 e 10. (32) Atos dos Apóstolos, 10: 19 e 22. (33) Atos dos Apóstolos, 11: 28. (34) Filipenses. 2: 1 (35) I João, 4: 1. (36) I Coríntios, 15: 44.

 

Publicado na página https://www.luzespirita.org.br/leitura/pdf/l99.pdf