artigo da semana

-COMUNICAÇÕES OU ENSINOS DOS ESPÍRITOS (12ª À 16ª)-

Por José Amigó e Pellícer

Uma colaboração de Estênio Negreiros (estenio.gomesnegreiros57@gmail.com)

 

 

Parte Terceira

 

12º

 

Julho de 1873

 

Belo e divinamente consolador é o ensino dos Espíritos. É a luz que vem romper o véu das trevas, que impede o homem de entrever qualquer coisa do seu destino espiritual. É a verdade que rasga, com seus irresistíveis resplendores, a escura nuvem que ensombra o horizonte da consciência e da razão humanas. É o suave rocio do amor que vem vivificar os corações na caridade. E a voz daquele que trovejou no Sinai, e que agora vos fala a linguagem de um pai condoído das fraquezas de seus filhos.

 

S. Luís Gonzaga

 

Quanta unção, quanta misericórdia e quão consoladora ternura respiram estas linhas ditadas pelo Espírito de S. Luís Gonzaga!

 

A revelação que baixa para dar luz à Humanidade extraviada, a mão providencial do Criador, semeando amor nos corações dos homens e o olhar terno e compassivo do Pai envolvendo seus fracos filhos, perdidos pelos tortuosos caminhos da vida, são um quadro que comove todas as fibras da alma e a faz cair de joelhos, exclamando: Pai meu! Pai meu, pequei em tua presença, calquei a lei; mas sou teu filho, salva-me!

 

Bendita mil vezes a doutrina que inspira tão piedosos sentimentos.

 

13º

 

Julho de 1873

 

Irmão. Inútil será a vossa espontânea missão, a vossa missão apostólica e a vossa propaganda caridosa e racional para com aqueles que procuram no Espiritismo, não a luz que vem do Alto, não as doces e puríssimas águas da virtude, que descem da fonte da vida, não a reforma de seus hábitos nem o repúdio de suas frivolidades, não, enfim, seu melhoramento moral, pela caridade e pelo amor, mas, sim, procuram a insensata satisfação de orgulhosa curiosidade.

 

Rogai por eles, porque são dos tais, de quem disse Jesus: têm olhos e não veem, têm ouvidos e não ouvem; por isso cerram os olhos à vida e os ouvidos à caridade. Porque viram as luzes e a desprezaram, volverão por seus pés à região das trevas.

 

Irmãos. Aproveitai os ensinamentos e conselhos que a misericórdia do Pai vos dá, a fim de que façais reviver a semente nos corações que a buscam.

 

Crede, amai e ensinai.

 

S. Luís

 

A primeira parte desta comunicação é o complemento da que tem o número 9 e o nome de Eulógio. Ambas revelam qual o fim que deve mover os que desejam as instruções superiores.

 

Na segunda parte, impelem-nos a continuar na fé e na propaganda da moral evangélica, impulso a que não podemos fugir, sem faltar à consciência e à gratidão que devemos pelos benefícios que nos têm sido prodigalizados com imerecida abundância.

 

14º

 

Julho de 1873

 

Vedes como os raios do Sol, após uma tempestade, atravessam as negras nuvens que envolvem a Terra e encobrem o horizonte?

 

Vedes como amaina a tempestade, restabelece-se a calma, recobra-se a esperança, suspiram docemente as brisas, os passarinhos renovam seus melodiosos gorjeios, e a Natureza se reanima?

 

Assim são as tormentas sociais e as tempestades humanas.

 

O mundo físico, em suas perturbações e em seus violentos abalos, não pode exceder o limite da lei do seu equilíbrio, que é a lei eterna da sua conservação e das suas necessárias transformações.

 

Do mesmo modo sucede no mundo moral, ou antes, no universo moral.

 

A ignorância, as revoltas da razão e da consciência, o fanatismo, as paixões, os interesses e o orgulho, são os ventos que revolvem as sociedades e arrancam a Humanidade do seu repouso.

 

Não vos perturbeis, porém; o universo moral segue sua rota, impelido pela divina lei da perfectibilidade e da purificação — e tudo, dia a dia, passo a passo, caminha para o seu providencial destino.

 

Não penseis que em algum tempo a Humanidade retroceda; ela vacila; porém, em sua vacilação, fortifica-se para avançar com impulso mais vigoroso.

 

Quão instrutivas e civilizadoras seriam, para o homem, as lições da História, se ela fosse o quadro fiel das vicissitudes humanas e se o homem pudesse abraçá-la em sua universalidade!

 

Porque, é preciso que o saibais, a vossa História é uma gota d'água no oceano das humanidades que se movem e se desenvolvem nas imensas campinas do infinito, e, mesmo assim, essa gota não chega a vós senão corrompida e adulterada. E tudo é por este molde. Sempre existe o véu espesso com que a cobrem e desfiguram as paixões e os interesses de seita e de partido.Tudo por este molde, repito, vereis na História confirmado o sucessivo e infinito progresso das sociedades humanas.

 

E quando chegar, pois chegará o venturoso dia em que a História Universal se apresentará a vossos olhos, clara, transparente, luminosa, sem véus e sem enfeites, então caireis, tomados de surpresa, aos pés dessa eterna Providência, cuja suprema luz arrancou a Humanidade das tenebrosas imensidades do caos.

 

S. João Evangelista

 

Os acontecimentos político-sociais que nessa época atravessavam a Espanha, fazendo recear grandes catástrofes, acabavam de ser o tema da nossa conversação, no momento de se receber essa comunicação evangélica.

 

Profundo conhecedor do movimento moral da Humanidade, ele desvanece as nossas dúvidas e acalma os nossos temores, falando-nos da lei do progresso, para o qual concorrem esses abalos sociais que aterram os homens.

 

Em testemunho de suas palavras, ele fala-nos dos ensinos da História; mas, de um traço, faz-nos compreender a insuficiência da nossa História — e a existência de outra maior, mais universal, mais digna da criação: a de todas as humanidades que se movem e se desenvolvem nas imensas campinas do infinito.

 

Essa é a criação digna de Deus: um universo cheio de inteligência, de adorações e de vida, e não o insignificante planeta em que habitamos, até hoje considerado como obra privilegiada da Suprema Inteligência.

 

15°

 

Julho de 1873

 

Enchei vossos corações de fé e de esperança.

 

Por que se refletem em vossas palavras o desânimo e a dúvida?

 

Porventura precisais, para vos mostrardes animosos e fortes, de legiões de homens que vos assistam e defendam?

 

Temeis!... Para crer, sem olhar para trás, aguardais que ronque o trovão e caia o raio? Vacilais!... Ah! Vede que o vosso valor é o dos que não têm fé: Vede que essa fé é a dos cobardes. Prossegui em vossa obra e regozijai-vos, porque é a obra dos discípulos e precursores do Espírito da Verdade, eleitos nos eternos conselhos do Altíssimo.

 

Não sereis, não podeis ser filhos pródigos dos dons que o Pai vos tem concedido.

 

Não vos orgulheis, nem seria prudente encher-vos de vaidade, porque o passado e o porvir são livros fechados a vossos olhos velados pela matéria.

 

Avante, irmãos meus queridos: virtude, perseverança e fé.

 

O que quiserdes dar-se-vos-á. Na casa do Pai há moradas sempre cheias de luz e de amor, onde os Espíritos voam no puríssimo ambiente da eterna felicidade, onde se realizam todas as harmonias da alma, onde se confundem todas as vontades numa única vontade, todos os sentimentos em um único sentimento, todas as felicidades na felicidade inefável do amor, do amor dos amores.

 

Santo Agostinho

 

No princípio dos nossos estudos teóricos e práticos acerca do Espiritismo, realizava-se em nós uma luta acerba, cujas diversas alternativas se refletiam em nossos atos e em nossas palavras. Em presença dos fatos e ante a lógica dos princípios, a fé apoderava-se de nós e nos impelia, à voz da consciência, pela senda do dever; mas, outra voz, a das recordações das crenças em que se haviam nutrido os nossos corações, entibiava o nosso valor, e as dúvidas nos tomavam e nos faziam vacilar.

 

Os costumes lutavam, em nós, com a realidade, os sectários dos ensinos de Roma lutavam com o cristão e o temor com a convicção.

 

Talvez, se não fossem as frequentes inspirações que do Alto nos vinham fortalecer e alentar, tivéssemos sucumbido e abandonado à gloriosa empresa; felizmente, porém, essas inspirações vieram, e a vitória coroou os nossos esforços.

 

Essa vitória nos condenava às sátiras de uns e à perseguição e maldição de outros; não obstante, porém, o sacrifício estava feito; à aprovação e às bênçãos dos homens, antepusemos a aprovação da consciência e a bênção de Deus.

 

16º

 

Julho de 1873

 

Meus irmãos, filhos como eu do Pai Espiritual que está no Céu. Marchai com passo firme, sem dúvidas nem vacilações, pelo caminho encetado, em cujo termo se encontra a luz regeneradora dos mundos e a paz dos Espíritos.

 

Se alguém na Terra vos disser: "eu sou a eterna verdade", cerrai os vossos ouvidos, porque a verdade imutável é o sol que brilha sobre as moradas da Cidade Santa.

 

Porque Roma quis usurpar a pérola que orna o divino diadema, é que estão contados os seus dias. Seus esforços são as supremas agonias da morte. O orgulho blasfemou de Deus e ousou levantar outro deus, mas soprou o vento das alturas, e o deus do orgulho, que era de barro, caiu reduzido a pó.

 

Vereis cumpridas estas palavras.

 

Continuemos, irmãos. O cristianismo romano não é o Cristianismo estabelecido por Jesus e pregado pelos Apóstolos e pelos Padres dos primeiros séculos da Igreja; é ramo decaído do grande tronco do catolicismo, já quase morto, porque perdeu o elemento essencial de vida — a seiva da humildade e do amor. Porque os pastores não cuidaram, como deviam, de suas ovelhas, e buscaram a sombra e o ócio, anda o rebanho disperso e à aventura, aniquilado pelo cansaço e sufocado pelo calor, em busca do cristalino manancial que há de restabelecer sua esperança e refazer suas forças.

 

Compadecei-vos desses guardas obcecados em um materialismo demasiado egoísta e terreno — e rogai por eles.

 

Perderam a confiança do Pai de família e não se sentarão à sua mesa, entre os escolhidos, enquanto todas as ovelhas, sem falta de uma, não tiverem chegado salvas ao redil.

 

Não olvideis jamais estas verdades

 

Seguirão as fugitivas pegadas da ovelha perdida e passarão os dias e os anos. Sofrerão angústias e grandes temores, o desalento apoderar-se-lhes-á da alma, à noite os surpreenderá no bosque, os rigores do estio, no areal, a tempestade, no deserto.

 

Não sofrerá, por sua causa, a pobrezinha ovelha?

 

Bendigamos todos a Deus, em seus sapientíssimos desígnios.

 

Fenelon

 

Tinha versado a nossa conversação sobre o dogma da infalibilidade, decretado pelo último concílio ecumênico, em 1870.

 

Sem ódio, sem paixão, sem animosidade de espécie alguma, antes, pelo contrário, com todo o respeito que merecem as decisões das autoridades e das corporações sábias, cada um de nós havia manifestado o seu modo de sentir a respeito desse assunto.

 

Terminada a pacífica discussão, ou, antes, a exposição de nossas apreciações particulares, desejávamos obter um raio de luz superior no assunto, e a luz nos veio por meio do imortal Fenelon.

 

Permita o céu que não seja ela repelida pelos que dirigem a nau do cristianismo oficial. Permita o céu que os pastores, em cujo número devemos considerar todos os que, por sua ilustração, podem servir de guias aos demais, abandonem a sombra e o ócio — e corram, pressurosos, à salvação do rebanho, que se perde nos despenhadeiros do materialismo e nos desertos do indiferentismo religioso.

 

Do livro Roma e o Evangelho, distribuição do Portal Luz Espírita (http://www.luzespirita.org.br)