artigo da semana

-A VELHINHA-

Autor desconhecido

Uma colaboração de Estênio Negreiros (estenio.gomesnegreiros57@gmail.com)

 

Vinte anos atrás, eu ganhava a vida como motorista de táxi.

 

Encontrei pessoas cujas vidas surpreenderam-me, enobreceram-me, fizeram-me rir e chorar.

 

Nenhuma tocou-me mais do que a de uma velhinha que eu peguei tarde da noite; era agosto.

 

Eu havia recebido uma chamada vinda de um pequeno prédio de tijolinhos, de quatro andares, em uma rua tranquila de um subúrbio da cidade.

 

Quando eu cheguei às 2:30 da madrugada, o prédio estava escuro, com exceção de uma única lâmpada acesa numa janela do térreo.

 

Assim, fui até à porta e bati.

 

– Um minuto –, respondeu uma voz débil e idosa.

 

Uma octogenária pequenina apareceu.

 

Ao seu lado havia uma pequena valise de nylon.

 

Toda a mobília estava coberta por lençóis.

 

Não havia relógios, roupas ou utensílios sobre os móveis.

 

Eu peguei a mala e caminhei vagarosamente para o meio-fio; ela ficou agradecendo minha ajuda.

 

Quando embarcamos, ela deu-me o endereço e pediu:

 

— O senhor poderia ir pelo centro da cidade?

 

— Não é o trajeto mais curto –, alertei-a prontamente.

 

— Eu não me importo. Não estou com pressa, pois meu destino é um asilo de velhos.

 

Eu olhei pelo retrovisor.

 

Os olhos da velhinha estavam marejados, brilhando.

 

— Eu não tenho mais família – continuou. O médico diz que tenho pouco tempo.

 

Eu, disfarçadamente, desliguei o taxímetro e perguntei:

 

— Qual o caminho que a senhora deseja que eu tome?

 

Nas duas horas seguintes, nós dirigimos pela cidade.

 

Ela mostrou-me o edifício que havia, em certa ocasião, trabalhado como ascensorista.

 

Nós passamos pelas cercanias em que ela e o esposo tinham vivido como recém-casados; em outro, hoje um depósito de móveis, que havia sido um grande salão de dança que ela freqüentara quando mocinha.

 

De vez em quando, pedia-me para dirigir vagarosamente em frente a um edifício ou esquina – ficava então com os olhos fixos na escuridão, sem dizer nada.

 

Quando o primeiro raio de sol surgiu no horizonte, ela disse, de repente:

 

— Eu estou cansada. Vamos agora!

 

Viajamos, então, em silêncio, para o endereço que ela havia me dado.

 

Chegamos a uma casa de repouso.

 

Dois atendentes caminharam até o táxi, assim que ele parou.

 

Eu abri a mala do carro e levei a pequena valise para a porta.

 

A senhora já estava sentada em uma cadeira de rodas.

 

— Quanto lhe devo? – ela perguntou, pegando a bolsa.

 

— Nada, respondi.

 

— Você tem que ganhar a vida, meu jovem.

 

— Há outros passageiros –, respondi.

 

Quase sem pensar, eu curvei-me e dei-lhe um abraço.

 

Ela me envolveu comovidamente.

 

— Você deu a esta velhinha bons momentos de alegria. Obrigada.

 

Apertei sua mão e caminhei no lusco-fusco da alvorada.

 

Atrás de mim uma porta foi fechada.

 

Era o som do término de uma vida.

 

Ao relembrar, não creio que eu jamais tenha feito algo mais importante na minha vida.

 

Nós estamos condicionados a pensar que nossas vidas giram em torno de grandes momentos.

 

Todavia, os pequenos momentos freqüentemente nos pegam desprevenidos e ficam maravilhosamente guardados em recantos que os outros podem considerar sem importância. “AS PESSOAS PODEM NÃO LEMBRAR EXATAMENTE O QUE VOCÊ FEZ, OU O QUE VOCÊ DISSE, MAS ELAS SEMPRE LEMBRARÃO DE COMO VOCÊ AS FEZ SENTIR”.

 

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